Segundo o diretor da Polícia Civil, Jorge Xavier, o áudio é falso. “Não vão divulgar para não causar um caos no DF, mas não é para sair de casa.” O áudio que circulou por um aplicativo de telefone celular, no sábado, amedrontou o brasiliense. Na gravação, a voz de um homem alerta que integrantes da inteligência da Polícia Civil do DF avisavam para a população ficar em casa por causa da violência. Acrescentava que três gangues barbarizariam a cidade com assaltos e assassinatos. Milhares de pessoas receberam a mensagem. Teve quem ficou com medo de sair e repassou a amigos e a familiares a suposta ameaça.
O acordo entre as facções, dizia a gravação, era assaltar e matar “a maior quantidade possível de pessoas”. “Quem ligou e avisou ao ‘Zaqueu’ foi um amigo dele. Ele é policial aposentado que trabalhava na inteligência, e quem ligou foi esse amigo dele da inteligência da Polícia Militar do DF”, diz trecho do áudio que contradiz a primeira informação, de que seria da Polícia Civil.
O diretor da Polícia Civil do DF, Jorge Xavier, informou que a mensagem é, na verdade, uma “brincadeira de mau gosto de jovens”. “No DF, não há nenhuma facção. Isso é molecagem. E inteligência só fala com integrantes da inteligência. Não fala para os amigos”, emendou. A gravação tem um minuto e 25 segundos e, no fundo, há muito barulho. É possível até escutar uma música sertaneja. Apesar disso, alguns preferiram não arriscar. “A minha filha deixou de ir a um show, que seria à noite, e foi ao cinema, à tarde. Ficamos amedrontadas”, admitiu a publicitária Elma Fernandes, 57 anos.
Filha de pais policiais, a servidora pública Raianne Sousa, 25 anos, acredita que a gravação seja verdadeira. “Fiquei com medo. Não deixei de fazer os meus compromissos, mas saí bem atenta”, contou. O bancário Sanderson Lima, 37 anos, recebeu uma ligação da mãe, que mora na Bahia, preocupada com a suposta ameaça. “Temos um grupo no telefone da família, e alguém postou o áudio. A minha irmã contou para a minha mãe, e ela disse que era para eu ficar em casa pelo menos no sábado”, disse.
O presidente da Associação Recreativa de Assistência da Polícia Militar do DF (Cifais), major José Ribamar de Souza Cruz, não acredita na veracidade da mensagem. “Ouvi as gravações e isso me soa mais como um alarme falso”, afirmou. Por meio da assessoria de Comunicação, a Polícia Militar confirmou que se trata de uma fraude.
A gravação se segue a uma série de ameaças feitas nas redes sociais após policiais militares deflagrarem a operação tartaruga. Um novo protesto faz referência à segurança no carnaval. Uma imagem é divulgada nas redes sociais chamando os militares para continuar o atraso nas ocorrências. A ordem entre os integrantes da mobilização seria não falar mais em operação tartaruga, mas em movimento legalidade.
Embaixador assaltado no Lago Sul
O diplomata Jório Dauster registrou ocorrência na 10ª DP: trauma.
Três assaltantes armados invadiram ontem a casa de um embaixador aposentado na QL 26 do Lago Sul, nas proximidades da Ponte JK. O crime aconteceu por volta das 20h. Jório Dauster, de 76 anos, e o caseiro ficaram reféns dos bandidos por cerca de uma hora e meia. Enquanto os criminosos recolhiam aparelhos eletrônicos e objetos de valor na residência, os dois foram mantidos amordaçados e presos nos braços. Não houve agressões.
O trio fugiu com o carro do diplomata, um Kia cinza. Em seguida, uma das vítimas ligou para o 190 e acionou a Polícia Militar. Os assaltantes acabaram localizados em São Sebastião. Ainda estava em poder deles o veículo do embaixador aposentado.
Dauster registrou ocorrência na 10ª Delegacia de Polícia (Lago Sul). Ao Correio Braziliense, ele se disse traumatizado com o assalto. “É um acontecimento que eu jamais vou esquecer, mas gostaria de expressar a rapidez do trabalho da polícia. É bola para a frente”, afirmou. O embaixador assistia a uma partida de futebol na televisão quando os bandidos entraram na casa. Ele não soube informar por onde houve a invasão.
Segundo informações da página oficial de Dauster na internet, ele entrou para o serviço diplomático em 1961. A vida profissional tem ligações fortes com o comércio internacional. Atuou, por exemplo, como presidente do Grupo de Países Produtores na Organização Internacional do Café. Também presidiu o Instituto Brasileiro do Café (IBC) e negociou a dívida externa do Brasil de 1990 a 1991. Foi ainda embaixador junto à União Européia e presidente da Companhia Vale do Rio Doce entre 1999 e 2001. Trabalha atualmente como consultor de empresas. Como tradutor, especializou-se nas obras de J. D. Salinger, de Vladimir Nabokov e Ian McEwan.
Flanelinha assassinado
No início da tarde de ontem, na 504 Sul, o flanelinha Átila Talmo de Sousa Goulveia, 36 anos, recebeu pelo menos três facadas nas costas. Informações preliminares da polícia dão conta de que ele e outro morador de rua beberam pela manhã e discutido. Por volta das 13h, o suspeito do crime teria voltado e golpeado o homem na porta de um supermercado. Segundo o delegado de plantão da 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul) Luciano Guimarães, as imagens das câmeras de segurança do estabelecimento serão analisadas.
A professora aposentada Adriana Lobato, 53 anos, afirmou que está horrorizada com a criminalidade do DF. Ela contou que pensa em deixar o país com a família. “Moramos aqui desde 1968, mas Brasília não dá mais”, lamentou. Síndica do Bloco E da 305 Sul, Maria Aparecida de Araújo, 65 anos, foi até o local do crime e contou que os moradores se mobilizam para montar uma associação. “Está muito difícil para nós, da quadra. É assalto, assassinato… À noite, não temos mais coragem de sair de casa e, agora, não tem segurança nem durante o dia”, reclamou a representante comercial.
Nas primeiras horas de sábado, duas pessoas morreram de forma violenta. Em Planaltina, Carlos Cristhian Ramos Soares, 18 anos, foi atingido por dois tiros em um bar, na Estância. O rapaz tinha passagens pela polícia por homicídio, e a suspeita é de que o crime tenha sido praticado como um acerto de contas entre gangues. Um adolescente de 16 anos é tido como o autor dos disparos.
Na QN3, no Riacho Fundo, um morador de rua de 20 anos foi esfaqueado em frente a um supermercado. Um homem ainda foi morto a tiros na QNM 17, em Ceilândia. A suspeita é de que o assassinato tenha sido motivado por acerto de contas.
Criança é baleada na cabeça
Por Kelly Almeida, Ariadne Sakkis, Camila Costa, Maryna Lacerda e Juliana Contaifer
Além do menino de 5 anos atingido na Estrutural, o primeiro fim de semana após a Justiça decretar o fim da operação tartaruga ficou marcado por pelo menos 12 assassinatos em 48h. Dez casos aconteceram apenas no domingo.
O menino Pedro Henrique foi atingido por dois disparos quando brincava com o irmão na frente de casa, na Quadra 4 do Setor Norte da Estrutural.
Uma criança de 5 anos levou ontem duas balas na cabeça após uma troca de tiros na Estrutural. Até o fim da noite de ontem, o menino Pedro Henrique permanecia internado em estado grave no Hospital de Base do DF. A violência marcou o primeiro fim de semana depois de a Justiça detrminar o fim da operação tartaruga. Em 48h, houve pelo menos 12 homicídios, sendo 10 só no domingo. E deu sequência a um janeiro com muito a lamentar na segurança pública do DF. Até a última quinta-feira, os índices contabilizavam nos primeiros 30 dias do ano 75 mortes violentas na capital federal, sendo 22 homicídios e latrocínios (roubos com morte) a mais do que o mesmo período do ano anterior.
Um dos assassinatos registrados no domingo aconteceu na 504 Sul, mesma quadra onde um morador de rua foi esfaqueado na última quinta-feira. Também ontem, dois homens morreram baleados em Santa Maria e houve um homicídio em Arniqueiras. Além disso, uma mulher sofreu um estupro no Setor de Chácaras, no Lago Norte. De sábado a domingo, as delegacias do DF ainda abriram as investigações de duas tentativas de homicídio e quatro roubos. Na noite de domingo, o embaixador aposentado Jório Dauster sofreu um assalto no Lago Sul (leia reportagem ao lado).
O crime cometido na Estrutural aconteceu por volta das 16h. Pedro Henrique brincava com o irmão de 10 anos na frente de casa, na Quadra 4 do Setor Norte, quando passou um homem de bicicleta e apontou a arma para o vizinho. Houve troca de tiros e dois disparos atingiram a cabeça do menino. A vítima foi socorrida por um popular, que a levou de carro ao Hospital de Base do DF. Testemunhas tentaram chamar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), mas não conseguiram contato.
Uma vizinha disse que a mãe dos meninos, a auxiliar de serviços gerais Daiane Costa Pinto, 28 anos, andou de um lado para outro com o filho no colo à espera de ajuda. Os bombeiros só chegaram mais tarde. Até o fechamento desta edição, o menino estava em cirurgia, em estado grave. Com 10 anos completados no sábado, o irmão da vítima contou que, ao ouvir o barulho dos tiros, correu para chamar o pai em casa. Quando voltou, encontrou o menino caído. Pedro Henrique mora com um tio no Recanto das Emas. No sábado, Daiane foi visitar o filho e o levou para casa depois de três meses sem vê-lo. Moradores disseram que os dois suspeitos se ameaçavam há dias. Ninguém havia sido preso até as 21h de ontem.
Mapa da violência
Na escalada de violência registrada até a última quinta-feira, Ceilândia e Planaltina lideram o ranking de violência. As cidades acumularam 26 homicídios e 49 tentativas de assassinato. Em Planaltina, também foi registrado um latrocínio. Os outros casos ficaram divididos em 20 regiões administrativas, entre elas o Plano Piloto. No começo do ano, um brigadeiro da Aeronáutica foi morto depois de levar um tiro na cabeça durante uma tentativa de assalto. João Carlos de Souza chegava em casa, na 112 Sul, quando foi abordado por três assaltantes. Ele foi atingido na cabeça e morreu.
O adeus de uma miss - Caderno Cidades do Correio Braziliense
Por Ariadne Sakkis
Com tristeza e indignação, parentes e amigos se despediram ontem da ex-miss Minas Gerais e Araguari Marilúcia Fernandes Malaquias. O enterro aconteceu no Cemitério Campo da Esperança, no fim da manhã. Aos 63 anos, ela sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) durante um assalto no rancho da família, no Altiplano Leste, próximo ao Lago Sul, na última terça-feira. Os bandidos, que fizeram refém as 14 pessoas presentes na casa, negaram socorro a Marilúcia. Por isso, ela só foi avaliada por uma equipe médica cinco horas depois de passar mal. No sábado, os aparelhos que a mantinham viva foram desligados.
A missa que antecedeu o velório aconteceu na Igreja Nossa Senhora da Esperança, na Asa Norte, paróquia onde Marilúcia era assídua e muito conhecida. De longe, em Araguari, cidade natal da ex-miss, amigos da mineira usaram as redes sociais para homenageá-la e manifestar a revolta com a crueldade dos criminosos. “Marilúcia, obrigada por todas as alegrias que você trouxe para a nossa Araguari! Obrigada pelo carinho dedicado à mamãe! Obrigada pela amizade dedicada a toda a nossa família! No dia do meu aniversário, 31 de janeiro, às 17h, Deus quis ver o seu desfile no céu!”, escreveu uma das amigas. Na mesma rede social, outra amiga se manifestou: “Que tristeza.! Uma pena. Não sei aonde vamos com tanta violência”.
Ameaça
De acordo com familiares, na noite de terça-feira, dois bandidos armados invadiram o rancho da família exigindo drogas e joias. Marilúcia passou mal quando um dos bandidos ameaçou agredir os netos, ainda crianças. Os parentes pediram para levá-la ao hospital, mas os assaltantes negaram e debocharam dizendo que ela estava fingindo a crise. Todas as pessoas presentes na casa foram amarradas.
O assalto se prolongou durante horas e apenas depois da saída dos assaltantes é que ela foi levada ao Hospital Brasília, no Lago Sul. Ela chegou consciente, mas não conseguia falar. O quadro se agravou e Marilúcia teve um edema no pulmão. A morte cerebral foi decretada na sexta-feira. Ela só respirava com a ajuda de aparelhos. A mineira venceu o concurso de Miss Minas Gerais em 1970 e chegou às semifinais do Miss Brasil no mesmo ano.
Adolescente rouba Porsche
Adriana Bernardes, Maryna Lacerda e Kelly Almeida
Garoto de 14 anos que se apresentou como possível comprador do carro de luxo usa arma de brinquedo para render o proprietário. Segundo a polícia, a intenção do menino era cruzar a fronteira do Brasil e trocar o veículo por armas e drogas.
O Porsche 911 Carrera vermelho foi recuperado pela Polícia Militar Rodoviária de Goiás às margens da GO-139, perto de Caldas Novas (GO).
O Porsche 911 Carrera vermelho roubado no Setor de Mansões Dom Bosco no sábado foi encontrado com os dois pneus estourados, às margens da GO-139, perto de Caldas Novas (GO). Um adolescente de 14 anos, morador de São Sebastião, confessou à polícia a autoria do crime. A intenção do garoto era, segundo a Polícia Militar Rodoviária de Goiás, cruzar o país rumo à fronteira com a Bolívia ou com o Paraguai e trocar o veículo por fuzis e drogas. Para chegar ao destino, faria uma parada em Caldas Novas, onde consultaria a internet a fim de traçar a melhor rota.
Dentro do Porsche, havia quatro aparelhos celulares, uma algema descartável de plástico e uma toca do tipo ninja. O terceiro-sargento Nelson Guimarães Filho, responsável pela apreensão do garoto, informou que ele teria dito que usou uma arma de brinquedo para ameaçar a vítima. “Ele soube da venda do veículo por meio de um anúncio e marcou o encontro se passando por um comprador. É articulado, bem apessoado e aparenta ter uns 21 anos ou mais. Por isso, deve ter conseguido enganar o dono”, acredita. A polícia ligou para a mãe do menino. “Ela disse que explica as coisas, mas ele não ouve”, conta o sargento.
O veículo, avaliado em R$ 450 mil, estava à venda em um site e não tinha seguro. O proprietário contou ao Correio que marcou o encontro para combinar a venda no shopping Gilberto Salomão, no Lago Sul. Achou que estaria mais seguro negociando em um local público. O suposto comprador se apresentou como médico e garantiu que pagaria pelo veículo no domingo. Tudo acertado, o falso interessado pediu ao dono do Porshe que ele o levasse em casa. “Deixei ele (o criminoso) ir dirigindo para sentir o carro. Ele me levou para um descampado e tirou a arma da cintura. Começou a me ameaçar”, detalha a vítima. “Pensei que fosse morrer.”
A Polícia Militar Rodoviária de Goiás fazia um patrulhamento de rotina quando se deparou com o Porsche abandonado no acostamento da GO-139. A consulta da placa revelou que havia um comunicado de roubo no Distrito Federal. Um motociclista que fazia a manutenção da moto a 50m informou aos policiais as características do condutor. O garoto foi encontrado saindo de uma mata a 2km do carro. Primeiro, ele negou ser o proprietário. Mas, confrontado com a testemunha, admitiu ser o condutor e o autor do roubo.
De acordo com o sargento Guimarães, o jovem relatou que dormiu em um hotel de Pires do Rio (GO) e seguia para Caldas Novas. Estourou os pneus após fazer uma manobra perigosa e bater no meio-fio. O jovem está à disposição da Justiça goiana e será encaminhado para o Distrito Federal.
De acordo com os policiais goianos, o garoto disse que roubou um carro antes do Porsche. “Ele não mostra arrependimento e parece estar pronto para outra. Apesar de ter só 14 anos, é provável que conseguisse chegar à fronteira se não fosse parado em nenhuma barreira policial”, diz o sargento Guimarães. Na tarde de ontem, o proprietário seguiu para Caldas Novas a fim de reaver o veículo.
Diálogo com os PMs será via comandante
O governador Agnelo Queiroz designa o chefe da corporação como o mediador para as reivindicações dos policiais militares envolvidos na operação tartaruga. A negociação, no entanto, só começa depois que o serviço ostensivo voltar ao normal.
Equipe da Polícia Militar reforça a segurança em parque localizado no fim da Asa Norte: determinação judicial para o fim da operação tartaruga.
O governador Agnelo Queiroz (PT) designou o comandante-geral da Polícia Militar do DF, coronel Anderson Carlos de Castro, como o único interlocutor para ouvir as reivindicações da tropa. O chefe do Executivo declarou ontem em entrevista ao Correio que qualquer conversa com a corporação acontecerá após a intensificação do policiamento ostensivo e a redução dos índices de violência. “Não tem negociação com a vida, com chantagem. É fundamental a normalização da situação. Antes disso, não haverá diálogo”, disse Agnelo.
O comandante da PM é quem deve conduzir as operações e monitorar as ações dos seus subordinados. O governador destacou a importância dos serviços prestados pela corporação. “A PM tem um papel brilhante, mas parte dos policias está sendo influenciada por partidos políticos”, afirmou. Apesar de a criminalidade ainda apresentar números assustadores — foram pelo menos 12 homicídios no fim de semana (leia mais na página 18) — , Agnelo disse ter sentido melhora nos índices de criminalidade nos últimos dois dias, comparado com fim de semana anterior.
Hoje, as associações de policiais e de bombeiros participantes da operação tartaruga devem ser notificadas oficialmente da decisão judicial que declarou a ilegalidade do movimento. Caso descumpram a ordem, passa a valer a aplicação da multa de R$ 100 mil diários estipulada pela desembargadora Nilsoni Custódio, do Tribunal de Justiça do DF e Territórios (TJDFT). O processo será distribuído para uma câmara cível de 2ª instância para análise de um desembargador e apresentação das partes. Caso as entidades recorram da liminar, o colegiado pode se reunir ainda nesta semana para julgar o mérito da ilegalidade da operação.
Para garantir o cumprimento da decisão, oficiais passaram a acompanhar soldados durante as rondas por determinação do comandante-geral da PMDF, coronel Anderson Carlos de Castro. As equipes nas ruas devem passar a localização a cada 20 minutos. A assessoria de Comunicação da corporação garantiu que o policiamento foi reforçado em todo o DF, inclusive, com policiais trabalhando voluntariamente durante oito horas, “em diversos horários, conforme o controle de ocorrências”. A expectativa do governo é de que, com isso, o policiamento ostensivo seja garantido à população.
Na ação movida pelo Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT), a procuradora-geral de Justiça Eunice Carvalhido destaca que a “ausência ou deficiência do policiamento ostensivo pela força pública militar tem causado incremento no número de crimes violentos cometidos no Distrito Federal”. O retorno às atividades seria uma garantia da manutenção da ordem pública.
Em caso de descumprimento, a Promotoria Militar de Justiça não descarta a possibilidade de os servidores identificados por atrasarem as ocorrências serem responsabilizados criminalmente. O promotor militar Nísio Tostes compara a operação tartaruga a uma paralisação ou motim. “O policial que não cumpre o seu dever de ofício pode incorrer na prática de prevaricação, previsto no artigo 319 do Código Penal”, explicou. Nesse caso, o servidor responde a um processo que pode levar a expulsão da corporação.
Investigação
Até agora, cinco líderes suspeitos de insuflar policiais militares a atrasarem os atendimentos são investigados pela Corregedoria da PM e pelo MPDFT. A promotoria militar instaurou procedimentos para cada um. “Os conselhos disciplinar levam a examinar a expulsão de praça da PM e de oficial. É mais do que uma sindicância. As associações que participaram da reunião com o Ministério Público têm consciência do que está acontecendo”, advertiu Nísio Tostes.
O promotor militar disse que o MP está disposto a intermediar uma negociação com o GDF para atender os pleitos da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros. O canal de diálogo, porém, só será aberto após os servidores voltarem ao serviço. “Não é a sociedade que tem de ficar sofrendo por conta de um processo de negociação com o Executivo, principalmente vindo de uma categoria na qual é proibida a sindicalização e a greve”, criticou (leia Três perguntas para).
Tostes ainda classificou a declaração postada no site da Associação dos Praças Policiais e Bombeiros Militares do DF (Aspra) como “infeliz”. No texto, dirigentes da entidade debocharam da procuradora-geral do MPDFT, Eunice Carvalhido. “O despacho da procuradora envolveu vários membros do MP e é tecnicamente perfeito”, defendeu o promotor.
Punição
É crime de prevaricação retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício, ou praticá-lo contra disposição expressa de lei para satisfazer interesse ou sentimento pessoal. A pena para o servidor é de três meses a um ano de detenção e multa.
Três perguntas para
Nísio Tostes, promotor de Justiça militar
O Ministério Público vai abrir um canal de diálogo com os policiais militares?
Pretendemos ajudar na construção de um acordo com o GDF, mas a condição é que a operação tartaruga acabe. Vamos esperar se a decisão será cumprida ou não. Caso queiram um auxílio do MP —como instituição que defende a cidadania para os pleitos —, esse movimento tem de parar.
Como o senhor avalia o movimento?
São reivindicações justas, mas a forma como o pedido é feito está errada. Não é a sociedade que tem de ficar sofrendo por causa de um processo de negociação com o Executivo, principalmente vindo de uma categoria para a qual é proibida a sindicalização e a greve. A desmotivação dos policiais é uma seara que a gente tem de resolver. O problema é que a radicalização leva ao caos, e a população não pode ficar refém disso. O trabalho da PM é muito bonito, muito honrado e não pode ficar à mercê dessa situação. Mas é necessário que se cumpra o que a constituição nos impõe. Existem outras formas de resolver, que não seja pela operação tartaruga. Agora vai a consciência de cada um.
O PM e o bombeiro que continuarem fazendo operação tartaruga podem ser punidos?
O policial que não cumpre o seu dever de ofício pode incorrer na prática que prega o artigo 319 do Código Penal. É um processo bem complicado. É a mesma coisa que um motim, uma paralisação, e eles podem ser responsabilizados, inclusive com expulsão da corporação.
Linha do tempo
Março de 2012 — A capital federal registra 88 mortes em 30 dias e fica entre os lugares mais violentos do país. A violência decorre da operação tartaruga.
Abril de 2012 — A Secretaria de Segurança Pública lança o Programa Ação Pela Vida para reduzir os índices de criminalidade.
Outubro de 2013 — PMs deflagram novamente a operação tartaruga.
4 de janeiro de 2014 — O militar João Carlos de Souza, 66 anos, é morto por assaltantes com um tiro na cabeça na 112 Sul. O secretário de Segurança reconhece a prática da operação tartaruga pela primeira vez.
28 de janeiro de 2014 — PMs prometem radicalizar o movimento caso o governo do DF não cumpra as reivindicações.
29 de janeiro de 2014 — Leonardo Monteiro, 29 anos, é assassinado em Águas Claras durante um assalto.
31 de janeiro de 2014 — Integrantes da cúpula da Segurança Pública decidem fechar qualquer possibilidade de diálogo com os dirigentes das associações vinculadas à operação tartaruga.
1º de fevereiro — A Justiça ordena o fim da operação tartaruga.
Conversa aberta
O governador Agnelo Queiroz se mostrou disposto a designar um representante do governo para buscar o acordo com a categoria, apesar de as dezenas de associações representativas da categoria exigirem o encaminhamento imediato de uma “proposta concreta”. Uma reunião amanhã pode ser marcada para selar as tratativas.
O avalista das conversas é o senador Cristovam Buarque (PDT). “Liguei para o Agnelo no sábado, após três anos sem nos falarmos, para tentar resolver a situação de anomalia em que vivemos. Encontramo-nos duas horas depois em uma casa do GDF, no Lago Sul, e ele ponderou que tinha dificuldade em manter a cidade da forma como está hoje, mas senti uma preocupação com a segurança, uma disposição ao diálogo e uma propensão a analisar com simpatia as reivindicações”, afirmou.
“Proposta decente”
Ontem, no Senado, Cristovam recebeu 10 associações. Rapassou a impressão que teve da reunião com o governador e pediu a retomada dos trabalhos. A Associação dos Praças Policiais e Bombeiros Militares (Aspra), à frente de quase 8 mil policiais, não não foi convidada. O vice-presidente, Manoel Sansão, elogiou a iniciativa, mas ameaçou endurecer o movimento se o governo não apresentar uma “proposta decente”. Representante dos oficiais aposentados, Mauro Manoel Brambilla disse que pretende convencer a corporação a demonstrar empenho nas funções.
Jornal Correio Braziliense
