POLÍCIA DESARTICULA JOGO DO BICHO EM BRASÍLIA COM CONEXÃO NO RIO

Duas organizações criminosas dividiam Brasília ao meio, em Norte e Sul, para explorar o jogo do bicho na capital do país. Uma operação da Polícia Civil do Distrito Federal na manhã desta quinta-feira, 26, resultou na prisão dos líderes dos dois grupos e na apreensão de R$ 2,75 milhões em dinheiro vivo. As investigações detectaram uma conexão com a jogatina praticada no Rio de Janeiro, principalmente a obtenção de know-how para as apostas eletrônicas do bicho.


Castor de Andrade, um dos maiores chefes do jogo do bicho no país até a década de 90. O sobrinho, conhecido como "Cesinha", teria recebido depósitos de R$ 200 mil a R$ 300 mil de uma das organizações criminosas, em 2009. As investigações continuam atrás de mais detalhes sobre a participação do sobrinho de Castor de Andrade na jogatina em Brasília. Castor morreu em 1997.

Ao todo, seis pessoas foram presas na operação, entre elas os dois líderes das organizações: Hélio Alfinito e João Carlos dos Santos. Os outros quatro detidos ocupavam funções importantes na hierarquia do jogo, como a contabilidade do dinheiro arrecadado e a administração do negócio ilícito. As investigações mostram que Alfinito e Santos respeitavam suas respectivas áreas de atuação, sem avançar por territórios alheios.

Até agora, os delegados responsáveis pela apuração não encontraram conexão com os negócios de Carlinhos Cachoeira, que chegou a ser preso e condenado pela Justiça Federal no ano passado por comandar um grande esquema de jogos ilegais em Goiás e região, com diversas conexões políticas. O entendimento dos policiais civis responsáveis pelas investigações no DF é de que, assim como os dois grupos se respeitavam, também não havia interferência em outras modalidades de jogo. O principal negócio de Cachoeira era a aposta em máquinas caça-níqueis.

Faturamento mensal chegava a R$ 3 milhões

A Delegacia de Combate ao Crime Organizado (Deco) da Polícia Civil do DF já sabe que o faturamento do grupo liderado por Santos chegava a R$ 3 milhões por mês. Todas as apostas eram feitas basicamente por meio de máquinas eletrônicas, semelhantes às usadas para cartões de crédito e débito. Centenas de apontadores atuam no esquema, mas não foram objeto da operação, que focou na atuação dos líderes das organizações criminosas.
Bairros nobres e regiões periféricas do DF concentravam a jogatina. As apostas individuais variavam de R$ 0,50 a R$ 100. O sorteio eletrônico do jogo do bicho seria realizado no Rio de Janeiro, mais um indício da conexão dos grupos do DF com as organizações do Rio.

Duzentos policiais participaram da operação, que cumpriu 27 mandados de busca e apreensão e seis prisões em flagrante. Os R$ 2,75 milhões em dinheiro vivo foram apreendidos em casas e escritórios de contabilidade. Um dos líderes mora numa ampla casa no Lago Sul, área nobre de Brasília. Um mandado de busca foi cumprido em Goiânia, mais especificamente numa empresa fornecedora das bobinas utilizadas nas máquinas destinadas às apostas.

Lavagem de dinheiro é um dos principais focos

O dinheiro proveniente do jogo ilegal era lavado por meio de empresas de fachada e também por meio de negócios lícitos. Uma imobiliária em Brasília é alvo da investigação. Os policiais não detectaram qualquer atividade recente na empresa. Farmácias também são investigadas como destinatárias da arrecadação do jogo. Nos últimos meses, os grupos criminosos deixaram de incluir instituições financeiras no esquema de lavagem, o que justificaria a grande quantidade de dinheiro apreendida.

– O jogo do bicho é apenas a ponta da pirâmide. A lavagem de dinheiro é um dos principais focos da investigação. Os líderes do DF adquiriram know-how no Rio – afirma o delegado Luiz Alexandre Gratão, diretor do Departamento de Polícia Especializada da Polícia Civil do DF.

A polícia conseguiu na Justiça o bloqueio de diversos bens, principalmente casas, carros e contas bancárias.

– Houve uma troca constante de tecnologia. Analisamos se parte dessa tecnologia pode ter vindo de fora do país – diz o delegado Fábio Souza, chefe da Deco e um dos responsáveis pelas investigações.

Um policial civil e um policial militar aposentados são investigados – o último chegou a ser autuado por porte ilegal de arma. Outros servidores públicos são suspeitos de participação no esquema.

O Globo