SEGURANÇA PÚBLICA NO DISTRITO FEDERAL: MENOS POLÍTICA, MAS POLÍCIA

Comércio ameaça suspender serviço 24 horas. Movimento com implicações eleitoreiras, a Operação Tartaruga prejudica o atendimento das ocorrências e contribui para o avanço da criminalidade no DF. Comércio ameaça suspender serviço 24 horas. Em 19 de janeiro, bandidos armados atacaram restaurante em um posto de gasolina na Asa Sul: comerciantes com medo do aumento da violência.


A Operação Tartaruga, conduzida por policiais militares, tornou-se o principal problema para a segurança pública do Distrito Federal. Pulverizado, o ato não tem uma liderança política com autoridade e legitimidade para dialogar com o Executivo e negociar as reivindicações da categoria. O movimento que prega o atraso no atendimento das ocorrências é inflado por associações comandadas principalmente por policiais com pretensões eleitorais. Sem um interlocutor com representatividade, a iniciativa tem servido apenas para alimentar a violência. ...

Enquanto parte da corporação cruza os braços para pressionar por melhorias salariais e desgastar a imagem do governo, a criminalidade avança na capital do país. Levantamento da Secretaria de Segurança Pública indica que, apenas nos primeiros 29 dias do ano, houve 63 homicídios, com um aumento de 28% em relação a janeiro de 2013. Muitos policiais militares têm evitado os chamados da população. Como mostrou o Correio em reportagens publicadas na semana, alguns PMs trocam mensagens em que revelam a omissão no atendimento.


Além da lentidão no combate ao crime, os policiais que alimentam a operação Tartaruga utilizam as redes sociais para disseminar um discurso radical e politizado. Disparam comentário agressivos, tripudiam da angústia da população e vibram com os crimes cometidos no Distrito Federal. Na terça-feira, o Correio publicou uma outra frente dos militares radicais: a distribuição de outdoors com as reivindicações e ameaças às autoridades de segurança. 

Ameaça econômica 
Iniciada há dois meses, a Operação Tartaruga começa a refletir na economia do DF. Em função de assaltos recentes às lojas de franqueados brasilienses, uma rede internacional de fast-food estuda suspender o serviço 24 horas de todas as unidades instaladas na capital do país. Se adotada a medida, inédita no país, os estabelecimentos do grupo fecharão as portas entre as 22h e as 8h.

A suspensão temporária do funcionamento da rede de fast-food na madrugada foi sugerida pelos próprios franqueados, após 20 lojas terem sido invadidas por homens armados nos últimos dois meses. Os empresários creditam o fenômeno à falta do policiamento ostensivo, imputada aos policiais militares que aderiram ao atraso no atendimento das ocorrências. Mas, temendo retaliações por partes dos PMs, os donos das filiais não querem as identidades nem o nome do grupo de fast food divulgados.

O temor desses e de outros comerciantes foi tema de debate na Associação Brasileira de Bares e Restaurantes no DF (Abrasel-DF) na última segunda-feira. Na oportunidade, os lojistas expuseram a situação e propuseram ações para chamar a atenção da sociedade e do governo. Uma delas é uma mobilização do empresariado e de trabalhadores do setor para uma grande manifestação por segurança.


Presidente da Abrasel-DF, Jaime Recena diz que os empresários se reúnem em separado e trocam mensagens para decidir as ações. “Ainda não há nada definido, mas vamos fazer algo, certamente. Do jeito que está, não pode continuar. Os empresários brasilienses precisam ter segurança para voltarem a trabalhar normalmente”, reclama Recena, dono de restaurante. 

Tiros e reféns
O setor, que emprega cerca de 100 mil pessoas no Distrito Federal, registrou mais de 100 ocorrências de violência apenas em janeiro, segundo o presidente da Abrasel. Muitas com tiros e funcionários e clientes feitos reféns, como a ocorrida em uma filial da rede de lanchonetes Subway, na 402 Norte, na madrugada de 21 de janeiro. Dois homens, um deles armado, entraram na loja e anunciaram o assalto. Levaram R$ 160.

Dois dias antes, um homem de 23 anos recebeu dois tiros na barriga durante um assalto a uma loja localizada em um espaço de conveniência de um posto de combustíveis, na 307 Sul, onde há outra filial da rede, uma da pizzaria Domino’s e uma da Spoleto, especializada em massas. A vítima foi levada a um hospital particular e recebeu alta no dia seguinte. Os criminosos roubaram, ao todo, R$ 280 da lanchonete, além da bolsa de um cliente, com documentos, cartões e R$ 300.


A dona da loja contou que esse foi o segundo roubo em menos de um mês. Em 28 de dezembro, quatro homens armados invadiram o estabelecimento — que funciona 24 horas — e levaram pertences de consumidores, além de R$ 250 do caixa.

A Associação dos Oficiais da PMDF (Asof/DF) distribuiu nota ontem afirmando que “não apoia nenhuma ação que venha a atrapalhar ou retardar o trabalho da Polícia Militar junto à sociedade”. “A Asof/DF reforça que sempre vai priorizar a legalidade de todos os atos e também ressalta que nenhum de seus diretores é pré-candidato a qualquer cargo eletivo para o pleito de 2014. Portanto, não prepara nenhuma campanha”, finalizou.

O Correio tentou contato com o secretário de Segurança Pública do DF, Sandro Avelar, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.

Copa ameaçada 

Não é de hoje que os policiais militares enfrentam abertamente os seus superiores por causa da insatisfação com os salários. Em novembro, um tenente-coronel do 21º Batalhão da PM (São Sebastião) mandou os subordinados não aguardarem mais a chegada da perícia em locais de crimes cometidos na área sob responsabilidade da unidade. O oficial alegou “escassez de efetivo” e problemas no relacionamento entre os militares e os agentes da 30ªDP (São Sebastião).

Em imagens gravadas há quase dois meses, em um café da manhã no 11º Batalhão de Polícia Militar, em Samambaia, um sargento não se intimidou e dirigiu duras palavras ao secretário de Segurança Pública, Sandro Avelar. O militar afirmou, que, caso a categoria não receba o aumento desejado, os PMs “darão o troco” na Copa do Mundo. “A Copa do Mundo ‘tá’ vindo aí. Se a Polícia Militar não for contemplada como outros órgãos da Segurança Pública, o troco nós vamos dar na Copa do Mundo. O senhor secretário leve essa mensagem (ao governador Agnelo Queiroz)”, ameaçou o sargento.

Negociação é urgente

Camila Costa 

  
Mensagens nas redes sociais: supostos PMs insuflam clima de insatisfação

Especialistas em segurança pública, política e legislação criticam a falta de um discurso uniforme e dos mecanismos usados pelos policiais militares do DF para terem as reivindicações atendidas. Para o jurista Bruno Espiñeira, da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no DF, o uso de redes sociais a fim de fomentar o movimento dá força à operação, mas leva pânico à sociedade. “Você começa a mobilizar, a incentivar, a chamar para o movimento, mas, mesmo sem invalidar as reivindicações, essas práticas começam a transbordar a legalidade e a deslegitimar a iniciativa”, avalia o integrante da Comissão de Ciências Criminais e Segurança Pública da OAB/DF.

Espiñeira alerta para a urgência de uma solução. O jurista ressalta ainda que os governantes não podem dar “ainda mais corpo” à Operação Tartaruga. “Espero que o governo esteja pensando em medidas mais concretas. A sociedade civil tem de estar atenta. Não podemos deixar que a penalizem ainda mais”, completa.

Em ano eleitoral, a capacidade de pressão das categorias aumenta, e isso não facilita um acordo com o Executivo, afirma o cientista político Lucio Rennó. Mesmo consideradas justas algumas reivindicações dos PMs, ele acredita que o atraso no atendimento de ocorrências tem nítidas motivações políticas, alimentando lideranças dentro e fora da corporação. “Tem a ver com as ambições e em quais partidos estão inseridos. Mas, apesar de ser complicador, não é a única motivação”, observa.

Especialista em segurança pública, George Felipe Dantas acredita que a pulverização dos comandos pode prejudicar as negociações entre os PMs e o governo, retardando o fim da mobilização. Para ele, os policiais têm legitimidade na operação. “A falta de aumento salarial há anos e o deficit de efetivo, por exemplo, desmotivam o serviço deles. É quando perdem o foco e a vontade, e isso é muito perigoso. Precisamos de uma polícia disposta a fazer além do cumprimento do dever diário, mas estamos com uma PM distraída, sendo que a criminalidade não tem limite”, alerta.

Jornal Correio Braziliense